gaslighting

Gaslighting: quando a realidade leva um “tens a certeza?” pela cara

Há pessoas que discutem.
Há pessoas que manipulam.
E depois há quem faça as duas coisas ao mesmo tempo e ainda te convença de que foste tu que começaste a conversa. Bem-vindos ao maravilhoso universo do gaslighting: a arte de apagar a luz da tua perceção e depois perguntar “porque estás às escuras?”.

O termo vem do filme Gaslight, em que um marido manipula a mulher ao ponto de ela duvidar da própria sanidade. Traduzindo para 2026: é o clássico “eu nunca disse isso”, mesmo com prints, testemunhas e talvez uma ata notarial.

Os estudos sobre gaslighting mostram que esta manipulação funciona precisamente porque não acontece de forma explosiva. É gota a gota. Um comentário aqui, uma negação ali, uma inversão de culpa acolá. O objetivo não é ganhar uma discussão, é fazer a outra pessoa perder confiança na própria memória, interpretação e emoções.

Exemplos clássicos:

  • “Estás a exagerar.”
  • “És demasiado sensível.”
  • “Nunca aconteceu assim.”
  • “Percebeste mal.”
  • “Eu só estava a brincar.”
  • “Se ficaste ofendido, o problema é teu.”

Ou seja: primeiro atiram a pedra, depois convencem-te de que afinal era um croissant emocional.

E o mais fascinante no gaslighting moderno é a capacidade olímpica de transformar críticas em “mal-entendidos”. A polémica recente com Cristina Ferreira tornou-se quase um estudo de caso público sobre comunicação, responsabilidade e… contorcionismo verbal. Depois das declarações polémicas sobre um caso de alegada violação, a apresentadora explicou que queria “compreender o que se passa na cabeça daqueles jovens” e insistiu que um “não é não”. Mas o momento que mais incendiou as redes foi quando recusou classificar o seu discurso como pedido de desculpas: “Não. É um lamento.”

E aqui entramos numa zona curiosa da psicologia social: o “pseudo-pedido-de-desculpas”. É aquele clássico:

“Lamento que tenhas interpretado assim.”

Reparem no truque ninja. O problema deixa de ser o que foi dito. Passa a ser a forma como tu ouviste. É quase gaslighting com embalagem premium: edição luxo, aroma a relações públicas e acabamento mate.

Nas redes sociais, muita gente reagiu precisamente a isso: à sensação de que houve mais esforço para explicar a intenção do que para reconhecer o impacto.  Porque pedir desculpa implica assumir responsabilidade; lamentar pode ser apenas dizer “que chatice isto ter corrido mal”.

Claro que nem toda a má comunicação é gaslighting. Às vezes as pessoas explicam-se mal. Às vezes dizem disparates em direto. Às vezes o cérebro sai para beber café e deixa a boca sozinha em horário nobre. Mas o padrão torna-se problemático quando a narrativa passa repetidamente por:

  1. minimizar;
  2. inverter;
  3. relativizar;
  4. sugerir que os outros é que perceberam tudo errado.

(Todos conhecemos alguém laranja a fazer isso desde que nasceu). É o equivalente emocional a partir um prato e perguntar: “Mas tens a certeza que ele já não vinha rachado?”

No fundo, o gaslighting é perigoso porque não tenta mudar os factos — tenta mudar a confiança que tens nos factos. E quando alguém te convence de que a tua perceção vale menos do que a versão conveniente deles, a manipulação deixa de ser conversa e passa a ser engenharia psicológica.

Moral da história?
Se alguém te faz duvidar constantemente da tua memória, sentimentos ou interpretação da realidade, talvez o problema não seja falta de luz. Talvez haja alguém muito empenhado em brincar ao interruptor.

Um comentário

  1. Genial! Mais uma vez, uma escrita simples, mas fantástica. Um abordar de temas interessantes de forma descontraída e perceptível. Parabéns e obrigada por mais um esclarecimento tão útil!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *