breadcrumbing

Breadcrumbing: quando o pãozinho é digital, mas a fome é emocional. 

Há qualquer coisa de fascinante na quantidade de palavras novas que inventámos para descrever aquilo que os nossos avós provavelmente resumiriam com um simples: “essa pessoa não está interessada”.

Hoje temos ghosting, breadcrumbing, orbiting, benching, love bombing, situationship e uma pequena padaria inteira de conceitos para explicar o que acontece quando duas pessoas gostam, não gostam, quase gostam, deixam de gostar ou simplesmente não sabem o que querem.

A série espanhola Machos Alfa brinca precisamente com esta proliferação de rótulos e com a forma como tentamos transformar comportamentos relacionais complexos em categorias quase científicas. Ás vezes com tanta seriedade que só falta uma tabela periódica dos afetos.

E é aqui que entra o breadcrumbing.

Segundo a investigação sobre relações online, breadcrumbing descreve aquele comportamento em que alguém vai deixando pequenas migalhas de atenção. Como por exemplo, uma mensagem aqui, um like ali, um “temos de combinar!” acolá… sem nunca chegar, de facto, à mesa.

É o equivalente emocional de receber Wi-Fi com uma barrinha de sinal: há conexão, mas não há serviço.

E há muitas formas de servir estas migalhas:
“Saudades tuas ❤️” sem qualquer intenção de marcar encontro.
Uma resposta depois de três semanas como se nada tivesse acontecido.
Um story visto religiosamente, mas nenhuma conversa.
Um “um dia destes temos de beber um copo” que sobrevive há seis meses.
Ou aquela mensagem às 23h47: “Estás acordado/a?” que é o equivalente romântico de bater à porta da padaria quando já fechou.

O problema é que, para quem recebe as migalhas, elas não são necessariamente insignificantes.

A investigação sobre recompensa intermitente ajuda a perceber porquê: quando a atenção aparece de forma imprevisível, o cérebro pode ficar particularmente atento à próxima recompensa. É o princípio psicológico que torna algumas máquinas de casino tão eficazes , só que aqui não perdemos dinheiro; perdemos horas a olhar para o telemóvel.

E os efeitos podem ser bastante reais: ansiedade, ruminação, dificuldade em perceber “onde estamos”, queda da autoestima e uma tendência para ficar emocionalmente preso a uma relação que, objetivamente, quase não existe.

Porque a pessoa não recebe informação suficiente para seguir em frente, mas recebe atenção suficiente para continuar a esperar.

É uma espécie de esperança em modo de suspensão.

E talvez essa seja a parte mais cruel das migalhas: não alimentam, mas também não deixam morrer completamente a fome.

No fundo, breadcrumbing não é migalha de amor. É panificação afetiva sem intenção de fazer o pão.

E se alguém só aparece para não desaparecer completamente, talvez esteja na hora de deixar as migalhas para os pássaros.

Eles, pelo menos, não ficam três horas a analisar o “😊”.

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